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    Desinformação, informações falsas e informações enganosas

    Módulo 8: 'Notícias falsas', desinformação e propaganda

    A Declaração do Problema

    A desinformação é um anátema para a qualidade do jornalismo e para a circulação de informações confiáveis ​​que estejam em conformidade com os padrões e a ética profissional.1Contudo, a desinformação e a informação errônea não são novidade, mas sim tornaram-se cada vez mais comuns, impulsionadas por novas tecnologias e pela rápida disseminação online de informações. A consequência é que a desinformação e a informação errônea disseminadas digitalmente, especialmente em contextos de polarização, correm o risco de ofuscar o jornalismo de qualidade e a verdade.2)

    Cada vez mais, as estratégias para combater a desinformação e a informação errônea assumem um caráter mais social, educativo e técnico, a fim de garantir que o direito à liberdade de expressão não seja violado por disposições legislativas excessivamente abrangentes que criminalizam esse tipo de discurso. Portanto, combater o ecossistema da desinformação e da informação errônea exige uma avaliação crítica das razões para a disseminação desse tipo de conteúdo e o estabelecimento de campanhas de alfabetização midiática.3Na prática, o combate à desinformação e à informação errônea, neste estágio, se enquadra mais no âmbito da defesa e da educação do que no âmbito judicial. O número limitado de litígios nessa área comprova isso. No entanto, é provável que essa situação mude à medida que os advogados especializados em direitos digitais se envolvam em litígios mais estratégicos e em casos-teste, buscando mitigar a desinformação e a informação errônea, ao mesmo tempo que protegem e promovem a liberdade de expressão.

    Definindo informações falsas
    Desinformação A desinformação é informação falsa, e a pessoa que a divulga sabe que é falsa. "É uma mentira deliberada e intencional, e indica que as pessoas estão sendo ativamente desinformadas por agentes maliciosos."
    Desinformação Desinformação é a informação falsa, mas quem a divulga acredita que seja verdadeira.
    Desinformação A desinformação é a informação baseada na realidade, mas usada para prejudicar uma pessoa, organização ou país.

    Causas da desinformação e da informação errônea

    Para entender como combater a desinformação e a informação errada, é útil primeiro compreender como ela se espalha. Com o advento da era da informação e da internet, a informação se espalha mais rapidamente, muitas vezes com um clique do mouse.4Da mesma forma, a velocidade com que a informação é transmitida e o acesso instantâneo à informação proporcionado pela internet têm provocado uma corrida para ser o primeiro a publicar informações, bem como a retransmissão ou promoção, muitas vezes irrefletida, das declarações de terceiros. Isto, juntamente com práticas mais insidiosas, como a distribuição intencional de desinformação para obter ganhos económicos ou políticos, criou aquilo que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO)UNESCO) refere-se a uma “tempestade perfeita”.(5)

    A UNESCO identifica três causas que possibilitam a disseminação de desinformação e informações errôneas:

    • Colapso dos modelos de negócios tradicionaisO rápido declínio na receita publicitária e a migração da publicidade para os meios digitais significam que as redações tradicionais têm muito menos recursos. Isso, por sua vez, levou à redução da qualidade das notícias e a menos tempo para mecanismos de controle. Também promove o jornalismo sensacionalista, conhecido como "isca de cliques".6Como resultado, os meios de comunicação tradicionais estão perdendo audiência, com os consumidores migrando para produtos de notícias "ponto a ponto" que oferecem "acesso sob demanda". É importante ressaltar que as notícias ponto a ponto não possuem ética e padrões acordados.
    • Transformação digital das redações e da narrativaCom o desenvolvimento da era da informação, observa-se uma transformação digital notável na indústria jornalística. Essa transformação leva os jornalistas a prepararem conteúdo para múltiplas plataformas, limitando sua capacidade de apurar os fatos adequadamente. Frequentemente, os jornalistas aplicam o princípio da "publicação prioritariamente social", em que suas matérias são postadas diretamente nas redes sociais para atender à demanda do público em tempo real. Isso, por sua vez, promove o jornalismo sensacionalista e a busca pela "viralidade" em detrimento da qualidade e da precisão.7)
    • A criação de novos ecossistemas de notíciasCom o acesso cada vez maior às plataformas de mídia social, os usuários podem selecionar seus próprios fluxos de conteúdo e criar suas próprias “redes de confiança” ou “câmaras de eco”, dentro das quais conteúdo impreciso, falso, malicioso e propagandístico pode se espalhar. Esses novos ecossistemas permitem que a desinformação e a informação errônea floresçam, já que os usuários são mais propensos a compartilhar histórias “emocionantes” ou sensacionalistas e muito menos propensos a avaliar corretamente as fontes ou os fatos. É importante ressaltar que, uma vez disseminada, uma declaração que o usuário percebe que pode constituir desinformação geralmente não consegue “retirá-la” ou corrigi-la.8)

    Essas causas continuam a representar dificuldades para redações, jornalistas e usuários de mídias sociais, visto que os novos ecossistemas de notícias, em particular, permitem que práticas e agentes maliciosos prosperem. No entanto, como já discutido, existe uma linha tênue entre buscar maneiras legítimas de combater a disseminação de desinformação e informações errôneas online e violar o direito à liberdade de expressão.

    WASHLITE x Fox News

    Em 2 de abril de 2020, a Liga de Washington para Maior Transparência e Ética (WASHLITE) iniciou um processo contra a Fox News, uma rede de notícias americana de direita, alegando que “as repetidas afirmações da Fox de que a pandemia de COVID-19 foi/é uma farsa não são apenas um ato desleal, mas também enganosas e, portanto, passíveis de ação judicial sob a Lei de Proteção ao Consumidor de Washington”.9A WASHLITE solicitou uma declaração nesse sentido e uma liminar (interdição) proibindo declarações repetidas na Fox News afirmando que a COVID-19 é uma farsa. Em suas conclusões, o Tribunal Superior de Washington considerou que o objetivo da WASHLITE era “louvável”, mas que seus argumentos “violavam as proteções da Primeira Emenda”, que garante o direito à liberdade de expressão, e, portanto, indeferiu o caso.

    Como combater a desinformação e a informação errada.

    Combater eficazmente a desinformação e a informação errada continua a ser uma questão contemporânea premente, com várias soluções propostas por juristas, académicos e ativistas. Em particular, o Juiz Anthony Kennedy, do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, na sua decisão maioritária em Estados Unidos contra Álvarez(10) afirmou: “O remédio para a fala falsa é a fala verdadeira. Este é o curso normal em uma sociedade livre. A resposta ao irracional é a racional; ao desinformado, a esclarecida; à mentira descarada, a simples verdade.”11As estratégias e campanhas de MIL (Immigration, Literacia e Alfabetização) propostas pela UNESCO procuram operacionalizar a posição defendida pelo Juiz Kennedy e fornecer uma abordagem holística para combater a desinformação e a informação errada, sem limitar o direito à liberdade de expressão.

    Notas de rodapé

    1. Id na pág. 70. Voltar
    2. Id na pág. 55. Voltar
    3. Id na pág. 57. Voltar
    4. Id nas pp. 57-8. Voltar
    5. Id nas pp. 59-61. Voltar
    6. Liga de Washington para Maior Transparência e Ética contra a Fox News, Petição Inicial dos Autores para Ação Declaratória e Mandamental, 2 de abril de 2020 (acessível aqui:  https://digitalcommons.law.scu.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=3190&context=historical). Voltar
    7. Estados Unidos contra Álvarez, 567 US 709 (2012) (acessível em: https://www.supremecourt.gov/opinions/11pdf/11-210d4e9.pdf). Voltar
    8. Id nas pp. 15-6. Voltar