Explicando os problemas: Notícias falsas

Já analisamos anteriormente como as leis de difamação criminal e de segurança nacional estão sendo cada vez mais usadas para silenciar jornalistas. A terceira lei, menos conhecida, que também é usada dessa forma é a criminalização da publicação de “notícias falsas”.

O que são leis sobre notícias falsas?

As leis contra notícias falsas foram promulgadas pela primeira vez na Inglaterra em 1275 e começaram a ser usadas em outros países europeus por volta da mesma época. Elas visavam especificamente a crimes contra a ordem pública e eram usadas como forma de proteger os proprietários de terras da disseminação de boatos e impedir que a população se revoltasse. Essas leis foram abolidas à medida que as democracias amadureceram e as pessoas conquistaram voz e participação na administração de seus países. No entanto, o que temos visto nos últimos 30 ou 40 anos é que países que herdaram essas leis de antigos governantes coloniais começaram a usá-las novamente, não para proteger proprietários de terras, mas para proteger governantes com tendências autoritárias contra aqueles que os criticam.

Então, como essas leis afetam os jornalistas?

Essas são leis penais e acarretam penas de prisão. Há um ônus da prova sobre o jornalista, pois, ao ser acusado de divulgar notícias falsas, ele precisa comprovar a veracidade do que disse. Isso leva à autocensura, porque os jornalistas recebem o sinal de que devem ter cuidado com o que dizem e não noticiar um assunto a menos que tenham 100% de certeza sobre algo, e, é claro, nunca se pode ter 100% de certeza sobre nada. Em países com uma forte cultura de liberdade de expressão, o público está acostumado a ler artigos de opinião que consideram diferentes perspectivas e a ouvir declarações do tipo "uma fonte sugeriu que...". Em países que usam leis contra notícias falsas para reprimir comentários, opiniões e críticas, o público não tem acesso a esse tipo de reportagem que lhe permite formar sua própria opinião.

Você pode nos dar exemplos de situações em que as leis contra notícias falsas foram aplicadas?

O caso mais notório recentemente foi a prisão dos jornalistas da Al Jazeera no Egito. Isso gerou manchetes em todo o mundo e resultou na campanha #FreeAJStaff nas redes sociais. No entanto, é incomum que acusações de notícias falsas recebam tanta atenção global, já que geralmente são usadas para silenciar jornalistas locais que trabalham em seus veículos de comunicação nacionais, e não grandes veículos de grande renome. Por exemplo, na Somalilândia, o jornal independente Hubaal foi fechado e a polícia ocupou sua sede depois que seu editor e gerente foram considerados culpados de acusações de notícias falsas e presos. Na Zâmbia, quando o presidente não era visto em público há várias semanas e as pessoas especulavam sobre sua saúde, um jornalista que sugeriu que o presidente poderia estar morto foi processado por espalhar notícias falsas.

Como a MLDI atua em casos relacionados a notícias falsas?

A MLDI ajuda a defender alguns casos individuais, mas nossa principal abordagem é adotar uma postura baseada em princípios e tentar declarar essas leis inconstitucionais. Atualmente, temos um caso pendente no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, no qual estamos instando o Tribunal a declarar que as chamadas leis de notícias falsas violam o direito à liberdade de expressão. O caso em questão diz respeito ao Armenian Times. Após os distúrbios eleitorais e a declaração de estado de emergência em 2008, a publicação de várias edições do jornal foi proibida com base em decretos presidenciais que proibiam a publicação de, entre outras coisas, “informações falsas ou desestabilizadoras”. Em nossa petição ao Tribunal, argumentamos que a proibição da publicação de “notícias falsas” não deve ser permitida sob nenhuma circunstância, nem mesmo em um estado de emergência. Tal decisão seria vinculativa para a Armênia e seria um forte sinal para outros países europeus que ainda têm essas leis em vigor de que elas devem ser abolidas. Também estamos preparando ações constitucionais em vários outros países.

Essa abordagem já foi bem-sucedida no passado?

Nos últimos dez anos, os Supremos Tribunais do Uganda e do Zimbabué declararam inconstitucionais as leis contra notícias falsas, por violarem o direito à liberdade de expressão. Isto demonstra que uma forte defesa jurídica pode funcionar e, quanto mais decisões judiciais como estas forem tomadas, mais os jornalistas se sentirão fortalecidos na sua capacidade de noticiar os factos livremente.

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