Bem-vindos à Série Defensores da Liberdade de Imprensa, onde ouvimos advogados que defendem jornalistas em todo o mundo. Recentemente, entrevistamos a jornalista investigativa camaronesa Amungwa Tanyi Nicodemus, que se tornou advogada de direitos humanos, para nossa série. Relatório Anual de 2024.
A Media Defence já apoiou a Nicodemus através do nosso Programa de Defesa de Emergência, quando foi alvo de perseguição por seu trabalho jornalístico. Agora, como advogado de direitos humanos, ele é um membro valioso da rede global de advogados da Media Defence e trabalha conosco há vários anos para apoiar jornalistas que enfrentam acusações com motivação política em Camarões.
“Eu prometi a mim mesma que cursaria Direito para combater abusos como os que sofri”, diz ela. Amungwa Tanyi Nicodemus, que está na vanguarda da defesa jornalistas em Camarões, onde tanto membros da imprensa quanto aqueles Aqueles que os protegem enfrentam ameaças crescentes.
A trajetória de Nicodemus no direito dos direitos humanos tem raízes em sua experiência pessoal. Em 2014, ele foi preso e detido por nove meses após publicar uma reportagem investigativa sobre suposta corrupção na Liga Cooperativa de Crédito dos Camarões (CAMCCUL). “Fui preso após um julgamento farsesco e uma sentença à revelia que me impôs seis meses de prisão e indenizações onerosas.” Ele recorda. Embora absolvido em apelação por falta de provas, a experiência o expôs à injustiça sistêmica: “Enquanto estava na prisão, descobri que muitos detentos estavam presos sem o devido processo legal. Usei meu conhecimento jurídico para entrar com petições nos tribunais e consegui a libertação de cerca de 60 deles.”
Essa experiência foi o catalisador para sua decisão de estudar Direito. Ele se formou na Escola de Direito da Nigéria em 2017 e, desde então, dedica sua atuação profissional à defesa de jornalistas e defensores dos direitos humanos em Camarões. “Minha motivação vem da minha determinação em combater todas as formas de injustiça, desde violações de direitos humanos até corrupção, tribalismo e nepotismo.”
Desde então, Nicodemus tem defendido casos de alto risco em todas as regiões anglófonas de Camarões, incluindo o do jornalista Kingsley Njoka. Njoka foi sequestrado de sua casa em Douala, mantido incomunicável e posteriormente acusado de secessão e apoio a grupos armados. “O julgamento de Kingsley foi um dos processos mais farsantes que já presenciei.” diz Nicodemos. “Ele passou quase cinco anos em prisão preventiva e foi condenado sem que a acusação apresentasse qualquer testemunha.”
O caso insere-se num contexto mais amplo de repressão contra a imprensa nos Camarões, particularmente nas regiões anglófonas. Nicodemus aponta para o caso do jornalista Samuel Wazizi, cujo destino permanece emblemático dos perigos enfrentados pela mídia independente na região. Wazizi foi preso em 2019, mantido incomunicável e morreu sob custódia em circunstâncias ainda inexplicáveis. Quando a família de Wazizi e a mídia começaram a exigir respostas, o governo mudou de tática — e jornalistas como Kingsley se tornaram os próximos alvos.” A Media Defence apresentou uma queixa contra Camarões à Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos para buscar responsabilização pelo que aconteceu com Samuel Wazizi.
O próprio Nicodemos não escapou ileso, o que evidencia os crescentes riscos enfrentados não apenas por jornalistas, mas também por aqueles que os defendem. Em 2021, enquanto representava um cliente em uma disputa imobiliária, ele foi preso e acusado de espionagem. “Eles alegaram que eu estava gravando vídeos para enviar a combatentes separatistas, simplesmente por causa da minha visibilidade pública.” Ele afirma. Detido por 10 dias sem acusação formal, foi libertado somente após a intervenção do presidente da Ordem dos Advogados de Camarões.
Apesar das ameaças, Nicodemos permanece persistente. “Acredito que minha dupla profissão me dá uma vantagem.” , diz ele. “Estou empenhado em promover a justiça, proteger as liberdades fundamentais e defender os valores democráticos. Onde há violação dos direitos humanos, há má governação.” Em reconhecimento à sua coragem e impacto, Nicodemus já recebeu os prêmios de Advogado de Direitos Humanos do Ano e de Advogado de Direitos Humanos Mais Ousado.
Liberdade de imprensa em Camarões
Apesar de possuir um dos ambientes midiáticos mais diversos da África, Camarões continua sendo um dos países mais perigosos do continente para jornalistas. Classificado em 131º lugar entre 180 países no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2024 da Repórteres Sem Fronteiras, o país oferece pouco espaço para o jornalismo independente ou crítico. Veículos de comunicação que questionam as narrativas do governo ou investigam má conduta oficial frequentemente enfrentam intimidação, assédio e ameaças.
Jornalistas que cobrem a crise anglófona – um conflito armado entre as forças governamentais e grupos separatistas nas regiões ocidentais de Camarões desde 2017 – enfrentam perigos particulares. A cobertura percebida como crítica ao papel do governo no conflito pode resultar em acusações de apoio à secessão ou auxílio a grupos armados, colocando os repórteres em sério risco legal e físico.
A situação de segurança obrigou muitos jornalistas a fugir. Segundo ADISI-CamarõesPelo menos 45 jornalistas do noroeste e sudoeste do país exilaram-se, enquanto outros 97 foram deslocados internamente. O conflito também levou ao fechamento de diversos veículos de comunicação, restringindo ainda mais o fluxo de informações.
Só em 2024, cinco jornalistas foram presos em Camarões, tornando o país o quarto pior infrator no continente africano em termos de encarceramento de profissionais da mídia. relatado Pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas.
Descubra mais histórias dos jornalistas que apoiamos e dos advogados dedicados que os defendem em nossa página. Relatório Anual 2024.