Assédio judicial na América Latina: o fenômeno do silenciamento sem morte

Este artigo foi gentilmente escrito para nós pelo nosso parceiro. Proposta Cívica, no México.

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“Processei o jornalista, mas não o matei…”
– Marta Ruiz

Viver na América Latina ou estar familiarizado com ela significa estar ciente das realidades políticas e sociais que desafiam o exercício dos direitos diante dos poderes institucionais e de fato. Isso inclui compreender as ameaças à liberdade de imprensa, que ocorrem nos âmbitos físico, jurídico, midiático e social.

Nos últimos anos, organizações internacionais e regionais de direitos humanos têm feito apelos contínuos para salvaguardar a pluralidade de informações e ideias, proteger jornalistas e condenar ataques contra eles. Esses ataques são diversos; podem variar desde assassinatos ou desaparecimentos criminosos até a instauração de processos judiciais contra jornalistas com o objetivo de reprimir, inibir ou silenciar vozes críticas ou a disseminação de informações sobre questões de interesse público.

Como organização da sociedade civil, temos documentado um aumento no uso de ações judiciais — sejam elas criminais, civis ou administrativas — contra jornalistas na América Latina. Os Processos Judiciais Estratégicos contra a Participação Pública (SLAPPs, na sigla em inglês) são uma tática na qual indivíduos que alegam ter sido prejudicados por publicações jornalísticas utilizam os tribunais — entrando com ações civis por danos à sua honra, reputação e dignidade, ou com queixas criminais — para suprimir e intimidar aqueles que publicaram ou planejam publicar informações sobre eles.

Quem move ações judiciais contra jornalistas?

Em matéria cível, ações judiciais são movidas por empresários ou figuras públicas que disfarçam suas reivindicações como ações judiciais comuns, quando, na realidade, constituem um abuso do sistema jurídico. Notavelmente, essas ações frequentemente carecem de provas de negligência jornalística ou de dano real ao demandante e buscam indenizações exorbitantes.

Por exemplo, em 2022, membros da publicação semanal Rio Doce e a organização da sociedade civil Laboratório Quinto Elemento Foram processados ​​em uma ação civil por empresários de Mazatlán, Sinaloa. O processo foi motivado pela publicação de duas investigações intituladas [título da investigação] que detalhavam descobertas da Unidade de Inteligência Financeira (UIF) sobre transações e conexões familiares e políticas de um consórcio empresarial. O processo foi posteriormente retirado após um pedido direto do governador de Sinaloa.

Qual é o objetivo das SLAPPs?

O objetivo principal das ações judiciais abusivas contra a participação pública (SLAPPs) não é necessariamente estabelecer precedentes legais ou obter indenizações contra supostos abusos à liberdade de expressão. Em vez disso, buscam exaurir os réus por meio de batalhas judiciais prolongadas e dispendiosas, além de gerar ansiedade e angústia diante da possibilidade de condenação ou de ter que pagar milhões de pesos ou dólares em indenizações. Honduras, Peru, Guatemala e México são os países com o maior número de casos de SLAPPs relatados, seguidos por Equador, Colômbia, Panamá e Nicarágua.

Esse é o caso do jornalista Sergio Aguayo Quezada, que está envolvido há oito anos em um processo civil iniciado pelo ex-governador de Coahuila, no México, por supostos danos morais.

O jornalista e acadêmico Aguayo Quezada escreve principalmente sobre temas relacionados à política, democracia, segurança e direitos humanos. O ex-governador processou o jornalista duas vezes: a primeira em 2016, após a publicação de uma coluna no jornal. Reforma jornal; e novamente em 2022, por um livro publicado em 2020 pelo Colegio de México e declarações feitas em um podcast em 2021.

É importante ressaltar que o segundo processo foi instaurado depois que a Primeira Câmara do Supremo Tribunal de Justiça da Nação — a mais alta instância judicial do México — proferiu decisão no mandado de segurança 30/2020, determinando que a coluna em questão era um exemplo de liberdade de expressão protegida pela Constituição e por tratados internacionais, e absolveu Aguayo Quezada.

No segundo caso, o processo está paralisado, pois os advogados do ex-governador entraram com recursos judiciais para prolongar o processo e evitar que os coautores do livro e a editora sejam levados a julgamento.

Esses processos judiciais afetam os jornalistas?

Os efeitos desses processos judiciais também se estendem à saúde psicológica e física dos jornalistas. Observa-se que jornalistas processados ​​sofrem consequências físicas e danos ao seu bem-estar pessoal devido à angústia e ansiedade causadas pela possibilidade de serem condenados e enfrentarem multas exorbitantes. Esses impactos incluem campanhas difamatórias, tensões familiares, consequências sociais e efeitos econômicos e no emprego.

“Fiquei com tanto medo que disse: no momento em que o processo terminar, não quero mais ser jornalista, não quero mais ser repórter.” (Jornalista, Roxana Romero García) 

“Os dois processos judiciais foram exaustivos para minha saúde física e emocional. Eu já estava sob muita violência e pressão por escrever e defender a liberdade de expressão. Depois desses 1,112 dias vivendo na incerteza, decidi fazer uma pausa no jornalismo, mas ainda penso em voltar porque há histórias que ainda precisam ser escritas.” (Jornalista Norma Trujillo)

Em que condições ocorrem processos civis contra jornalistas?

Esses processos são marcados por uma significativa desigualdade. Documentamos como, na maioria dos casos, existe uma disparidade entre as partes em termos de poder político, econômico e/ou social — a pessoa que tenta suprimir a atividade jornalística (o demandante) e a pessoa afetada por essa ação (o jornalista ou veículo de comunicação). Essa disparidade compromete a defesa da liberdade de expressão, uma vez que os jornalistas frequentemente não dispõem dos recursos necessários para obter uma representação legal de qualidade, diferentemente dos demandantes.

A importância de lidar com as ações judiciais SLAPP

Como vimos, o uso de ações judiciais estratégicas contra a participação pública (SLAPPs), particularmente as ações cíveis, é extremamente prejudicial aos jornalistas. Trata-se de um fenômeno alarmante, pois o sistema judicial é usado indevidamente sob a alegação de que aqueles que promovem a liberdade de expressão supostamente prejudicam a honra ou a dignidade de funcionários públicos e/ou empresários.

Os jornalistas são os principais defensores da liberdade de expressão, pilar fundamental da democracia. O sofrimento psicoemocional e econômico dos jornalistas em decorrência desses processos não tem sido abordado pelo Estado e pode ser diagnosticado como sintoma de uma crise na democracia mexicana.

É necessário que o Estado mexicano faça ajustes em seus órgãos jurídicos civis para prevenir tais ataques contra aqueles que exercem sua liberdade de expressão e de imprensa, e para garantir efetivamente o exercício desses direitos fundamentais em uma sociedade democrática.

Escrito por:

Sara Lidia Mendiola Landeros – Diretora Executiva da Propuesta Cívica
Víctor Javier Martínez Villa – Coordenador da Área Jurídica da Propuesta Cívica
Eugenie Renaudo – Estagiária Jurídica na Propuesta Cívica 

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