Defendendo a verdade nos tribunais: a Media Defence e o ACNUDH colaboram para fortalecer a defesa da liberdade de imprensa na América Latina.

No início deste ano, a Media Defence e o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) organizaram um workshop de três dias sobre litígios na Costa Rica, reunindo 19 advogados de 12 países da América Latina para fortalecer as estratégias jurídicas de defesa de jornalistas que enfrentam processos judiciais, criminalização, assédio e violência, tanto online quanto offline.

Desde que a Media Defence começou a se organizar Cirurgias de Litígio em 2015Mais de 400 advogados de mais de 55 países participaram. A colaboração com o ACNUDH representa um importante passo adiante. "Essa parceria ampliou o impacto de nossa mais recente formação jurídica na América Latina", afirmou Carlos Gaio, CEO da Media Defence.

“A liberdade de expressão é um direito humano fundamental”, acrescentou Sara Nuero, coordenadora do Projeto de Estratégias Regionais de Direitos Humanos da ONU para a América Latina. “Ela sustenta as sociedades democráticas. É por isso que unimos forças com a Media Defence – para fortalecer a capacidade dos advogados de defender jornalistas em nível nacional e por meio de mecanismos internacionais de direitos humanos.”

Uma iniciativa prática em uma região sob pressão.

A América Latina abriga alguns dos trabalhos de jornalismo investigativo mais ambiciosos do mundo – e algumas das condições mais perigosas para o seu exercício. Nos últimos dois anos, a Media Defence apoiou mais de 150 processos judiciais em 15 países, quase um terço de sua atuação global, o que reflete uma região onde a pressão sobre a imprensa continua a aumentar.

Em toda a região, as autoridades estão a implementar um arsenal crescente de ferramentas legais e administrativas para obstruir o jornalismo de interesse público. Leis restritivas para a imprensa, sanções administrativas, limites ao financiamento estrangeiro, auditorias fiscais punitivas, regimes de registo obrigatório e até bloqueios de redes estão a transformar o panorama de formas que dificultam o jornalismo de maneira discreta.

Os participantes descreveram e compartilharam experiências de uma onda crescente de retrocessos legislativos, particularmente a adoção de leis semelhantes às de agentes estrangeiros. Angélica Cárcamo, diretora executiva da Rede Centro-Americana de Jornalistas (RCP), é de El Salvador, um dos vários países onde essa legislação foi aprovada recentemente. Ela observou que a nova lei impõe um imposto de 30% sobre os fundos recebidos por jornalistas de doadores internacionais. "Esse tipo de legislação visa restringir a liberdade de imprensa", afirmou Cárcamo.

As preocupações com a independência judicial também permearam as discussões sobre a Cirurgia Contenciosa. No Brasil, a interferência política tornou-se tão generalizada que, como disse um advogado, “tudo depende da posição política do juiz”.

Ao mesmo tempo, formas mais explícitas de repressão não são incomuns: detenções arbitrárias, processos por questões de segurança nacional e acusações criminais de “notícias falsas” usadas para silenciar reportagens críticas. Jornalistas têm sido submetidos a vigilância intrusiva, assédio e ataques digitais. Em alguns casos, enfrentaram desaparecimento forçado, tortura ou execuções extrajudiciais, sendo o México o país mais perigoso para a imprensa fora de zonas de guerra ativas. “Defender o jornalismo é essencial para a democracia”, afirmou Sara Lidia Mendiola Landeros, diretora executiva da Propuesta Cívica. “Especialmente no México, o país mais perigoso e letal para a imprensa.”

Para as mulheres jornalistas, o cenário apresenta desafios interligados. A violência de gênero e o abuso misógino amplificam as ameaças que enfrentam. “A violência contra as mulheres jornalistas é como uma dupla violência”, disse Mendiola Landeros. “Elas são atacadas não apenas por serem jornalistas, mas também por serem mulheres.” O assédio sexual frequentemente se estende a membros da família, e a pressão implacável está afastando muitas mulheres das plataformas digitais e, em alguns casos, levando-as a abandonar a profissão por completo.

Em diversos países, incluindo Argentina, Brasil, Venezuela, Nicarágua e El Salvador, autoridades têm adotado uma retórica política cada vez mais hostil, retratando jornalistas como “inimigos”, “agentes estrangeiros” ou ameaças à segurança nacional. Essa narrativa complica ainda mais o ambiente para a liberdade de imprensa, alimentando campanhas de assédio, fornecendo cobertura política para legislação repressiva e aumentando o risco de violência. Essa dinâmica forçou pelo menos 913 jornalistas de 15 países ao exílio entre [anos omitidos]. 2018 e 2024À medida que o espaço cívico diminui e a perseguição legal se intensifica.

A conferência sobre defesa jurídica na Costa Rica foi convocada em resposta ao agravamento dessa crise – não apenas para jornalistas, mas também para aqueles que os defendem. Muitos advogados agora enfrentam ameaças, assédio e vigilância devido aos casos que assumem. Nesse cenário complexo, o fortalecimento da defesa jurídica regional não é mera formação profissional; é uma intervenção essencial para salvaguardar o jornalismo independente e o direito do público à informação.

Essas oficinas jurídicas são mais do que treinamentos técnicos: elas criam espaços onde advogados podem aprimorar estratégias, trocar experiências práticas e construir redes de apoio regionais. Como observou Carlos Gaio, os participantes compartilham rotineiramente precedentes, informações e argumentos que fortalecem a defesa perante tribunais nacionais e regionais. O modelo — orientação especializada, resolução colaborativa de problemas e conexões com mecanismos regionais e internacionais — ajuda os profissionais do direito a responderem com mais eficácia aos desafios enfrentados pelo jornalismo independente.

Depoimentos dos participantes

Ouça diretamente dos participantes Em nossas entrevistas em vídeo, eles descrevem as pressões enfrentadas pelos jornalistas em seus países e as estratégias que estão utilizando para lidar com elas:

https://youtu.be/SkYMqZGFSAs

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