Hoje se comemoram 31 anos desde que a Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes (CAT) entrou em vigor. A CAT foi ratificada por 162 países, mas o uso da tortura ainda é generalizado. Só em 2017, trabalhamos em 13 casos relacionados à tortura física ou psicológica de jornalistas em cinco países: Azerbaijão, Bahrein, Colômbia, Gâmbia e Rússia. Dia Internacional das Nações Unidas em Apoio às Vítimas de TorturaA Convenção contra a Tortura, realizada anualmente em 26 de junho, marca o aniversário da Convenção contra a Tortura e destaca que a tortura continua sendo usada em muitos países ao redor do mundo. Conversamos com... Advogada premiada em direitos humanos e o ex-diretor do Instituto de Direitos da Mídia, Rashid Hajili, sobre o uso de tortura contra jornalistas no Azerbaijão.
O Azerbaijão ratificou a Convenção contra a Tortura (CAT) em 1996, mas o país continua a usar a tortura como método de opressão. Negou aos inspetores da CAT o acesso a instalações de detenção, como prisões e instituições de saúde mental. O governo tem se tornado cada vez mais hostil à mídia independente, resultando na tortura de jornalistas devido ao trabalho que realizam. A ONU criticou o Azerbaijão por torturar defensores dos direitos humanos.A organização Repórteres Sem Fronteiras classifica o país apenas em 163º lugar entre 180 países em sua lista. Índice de liberdade de imprensa.
“A tortura é uma ferramenta política para deixar as pessoas com tanto medo que elas não consigam fazer nada”, explica Hajili. Os poucos jornalistas que ainda cobrem temas como a corrupção governamental enfrentam tortura, além de ameaças, sequestros, prisões sem julgamento e acusações falsas. Hajili, que já representou jornalistas azerbaijanos perante tribunais nacionais e internacionais, observa que “muitas vezes, os mesmos jornalistas já sofreram mais de um tipo de tortura”.
Pessoas que publicam conteúdo em redes sociais ou blogs independentes enfrentam as mesmas ameaças que jornalistas que trabalham por meios de comunicação mais tradicionais. "Qualquer jornalista que critique o governo está sempre sob ameaça", afirma Hajili.
Além da tortura, os jornalistas enfrentam outras ameaças, como prisões arbitrárias e acusações falsas. "Eles são acusados de vandalismo, sonegação de impostos e tráfico de drogas", explicou Hajili.
Em um dos casos, Hajili representou um jornalista cujos artigos expuseram a corrupção em ministérios do governo e entre membros da família presidencial. O jornalista foi preso e detido sem julgamento por participar de uma manifestação. Durante a detenção, ele foi espancado por agentes de segurança em um ataque prolongado que durou de duas a três horas. Nesse período, foi ameaçado de represálias, sob pena de sofrer punições ainda mais severas. Apesar de o jornalista ter denunciado a violência física, nenhum processo legal foi instaurado. A investigação do incidente foi inadequada – nenhum detento foi interrogado e os guardas prisionais simplesmente negaram qualquer irregularidade.
As autoridades do Azerbaijão continuam a agir com impunidade. Isso inclui a recusa em investigar casos de tortura, bem como a simples negação da existência de tortura no país. Em circunstâncias em que o Azerbaijão foi considerado culpado de violação de Artigo 3 da Convenção Europeia dos Direitos do Homem A empresa pagou a indenização conforme determinado, mas manteve a posição de que não houve tortura.
Isso tem um efeito extremamente intimidatório tanto para jornalistas quanto para advogados. Os jornalistas têm medo de noticiar assuntos que possam colocar sua segurança ou suas vidas em risco, e aqueles que persistem têm dificuldade em obter representação legal, já que os advogados enfrentam as mesmas ameaças do governo.
A situação piorou nos últimos anos. Cada vez mais, as vítimas enfrentam processos por difamação por dizerem que foram torturadas, e seus advogados enfrentam processos por difamação ou cassação da licença para exercer a profissão. Hajili afirma que, no último ano, seis advogados que atuavam em casos políticos tiveram suas licenças cassadas, e muitos outros deixaram de trabalhar nesse tipo de caso por medo. "Então, agora, até mesmo os advogados que aceitam esses casos não querem falar sobre tortura – em breve não haverá mais ninguém para falar sobre isso", explica.
Segundo o conhecimento de Hajili, restam apenas alguns advogados no Azerbaijão dispostos a representar jornalistas que enfrentam processos criminais.
Hajili reside atualmente em Estrasburgo, após ter sido alvo de um processo criminal, assim como o aclamado Instituto de Direitos da MídiaEle fugiu do país depois que suas contas bancárias foram congeladas e alguns de seus colegas foram presos. Embora possa continuar representando seus clientes perante o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, ele está impedido de aceitar novos casos no Azerbaijão.
“No Azerbaijão, não existe mais mídia independente”, afirma Hajili. “Há algumas coisas online, mas não existe nenhum veículo de comunicação funcional que possa criticar o governo.” A cobertura sobre corrupção e violações dos direitos humanos no Azerbaijão está sendo feita por jornalistas que vivem fora do país, em circunstâncias que os forçaram a fugir.
Hajili explica que, sem advogados para contestar a impunidade, o Estado se sente encorajado a usar a tortura. “Sem advogados, ou com muito poucos, aceitando esses casos, o risco de tortura aumenta. A polícia está mais propensa a torturar pessoas agora.”
A importância de uma imprensa livre e independente é tão fundamental que alguns jornalistas persistem apesar dos graves perigos. Hajili explica que a gravidade da situação pode, por vezes, impulsionar os jornalistas: “A situação é muito difícil para muitas pessoas”. No entanto, afirma que haverá sempre pessoas corajosas que continuarão apesar da ameaça muito real e do risco de serem processadas.