“Desde que lançamos esses workshops de defesa jurídica – o que chamamos de cirurgias de litígio – em 2015, mais de 400 advogados de mais de 60 países participaram”, disse Carlos Gaio, CEO da Media Defence. “São sessões intensivas de três dias, onde advogados de uma determinada região trocam experiências e estratégias para a defesa do jornalismo, da liberdade de expressão e dos direitos humanos.”
Esse espírito colaborativo esteve no cerne da Conferência de Litigação da África Subsaariana, realizada em Windhoek, Namíbia, de 22 a 24 de setembro de 2025. Dezessete advogados de 12 países, abrangendo desde Uganda e Ruanda até Gana e Eswatini, reuniram-se não apenas para fortalecer o litígio estratégico, mas também para construir solidariedade regional.
A agenda equilibrou princípios fundamentais do direito dos direitos humanos com casos práticos. As sessões – que abordaram temas como difamação, vigilância, ações judiciais abusivas contra a participação pública (SLAPPs), direitos digitais e violência contra jornalistas – foram propositalmente interativas, incentivando os participantes a aplicar padrões jurídicos internacionais e regionais sobre liberdade de expressão aos casos urgentes que enfrentam em seus países.
Um dos componentes mais envolventes foi o tribunal simulado no último dia. Os advogados foram convidados a argumentar em um caso simulado de liberdade de expressão em um ambiente restritivo perante um painel de colegas e facilitadores. O exercício exigiu que os participantes refletissem sobre os princípios explorados ao longo do curso, ao mesmo tempo que confrontavam as realidades políticas e jurídicas de contextos restritivos – uma oportunidade para aprimorar suas habilidades de advocacia em um ambiente colaborativo e transfronteiriço.
Desde o início, os participantes enfatizaram o quão valioso era comparar experiências entre diferentes jurisdições. “O Curso de Litigação foi muito útil e valioso para mim. Pude discutir com meus colegas advogados os desafios que enfrentamos como litigantes e tive o privilégio de aprender como casos semelhantes são tratados em outras jurisdições.” Um advogado explicou. Outro refletiu: “O evento aconteceu em um momento oportuno. Um momento em que muitos países africanos estão promulgando leis que não respeitam a liberdade de informação e o acesso à informação. As experiências compartilhadas certamente me motivam a continuar contribuindo para a proteção desses direitos fundamentais.”
Para muitos, o verdadeiro valor residia nas redes criadas. Um participante expressou isso de forma eloquente:
“A liberdade de imprensa não é um luxo, mas sim a essência de uma democracia funcional. Contudo, num mundo marcado pelas sombras digitais e por complexos desafios internacionais, a liberdade só é tão forte quanto o quadro jurídico construído para a defender. Esta formação capacitou uma nova geração de advogados com o conhecimento do direito internacional. Adquiriram as ferramentas e os argumentos necessários para irem além da simples denúncia de injustiças e para litigarem com sucesso em busca de justiça.”
As respostas da pesquisa destacaram o impacto do evento. Quase 90% dos participantes relataram sentir-se... “muito confiante” litigar casos de liberdade de expressão após a cirurgia, com os demais também relatando maior confiança. Todos os participantes concordaram que seus conhecimentos e habilidades aumentaram. Como refletiu um advogado:
“Este programa de treinamento foi excepcional e superou significativamente minha meta de desenvolvimento profissional. Os exercícios práticos e os estudos de caso, com foco na interseção entre direito internacional e litígios, foram fundamentais para me ajudar a aprimorar consideravelmente minhas habilidades em litígios.”
Os participantes vieram de países que enfrentam cenários midiáticos marcadamente diferentes, mas igualmente desafiadores, um fator que enriqueceu as discussões. De Uganda, onde jornalistas sofrem assédio quase diário por parte dos serviços de segurança, a Camarões, que, apesar de possuir um dos cenários midiáticos mais ricos da África, é um dos países mais perigosos do continente para jornalistas, particularmente para aqueles que cobrem a crise anglófona. Ruanda permanece sob rígido controle, com muitos jornalistas trabalhando no exílio e aqueles que estão no país frequentemente enfrentando detenções arbitrárias. A Nigéria continua a registar frequentes prisões e ataques, particularmente contra jornalistas de investigação. No Quénia e no Togo, a propriedade dos meios de comunicação social com ligações políticas e a vigilância exercida exercem uma forte pressão sobre a independência editorial, enquanto a Tanzânia e o Zimbabué enfrentam leis restritivas e a influência do Estado na publicidade. Mesmo em países com proteções comparativamente mais fortes, como o Gana e o Botswana, os participantes salientaram pressões ligadas à propriedade politizada, à publicidade e à segurança.
Os participantes também destacaram a necessidade de abordar as ameaças enfrentadas pelos próprios advogados, que estão sendo cada vez mais visados. Da vigilância e cassação da licença para exercer a profissão ao assédio judicial, detenção arbitrária e até violência física, governos em todo o mundo pressionam os advogados, dissuadindo-os de representar jornalistas e, em alguns casos, forçando-os ao exílio – o que ressalta a necessidade urgente de desenvolver redes de apoio regionais robustas.
A operação em Windhoek demonstrou que, embora os contextos sejam diferentes, os desafios enfrentados por jornalistas e seus advogados estão profundamente interligados. O que une os participantes é a convicção compartilhada de que o litígio estratégico pode combater essas ameaças e criar espaço para a sobrevivência da mídia independente.
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A Media Defence organizou este evento em conjunto com FIFA África 25, hospedado por CIPESA.