Banida, multada e presa: Saba Sutidze fala sobre a repressão à imprensa na Geórgia.

Nesta edição do Press Freedom Advocates, a Media Defence conversa com Saba Sutidze, advogada de direitos humanos e de mídia do Instituto de Tolerância e Diversidade, sobre a crescente repressão, os riscos para jornalistas e sociedade civil, e por que o apoio jurídico e o litígio estratégico são vitais para defender o futuro democrático da Geórgia.

A primavera de 2024 levou a Geórgia a um ponto de ebulição. Milhares de manifestantes tomaram as ruas de Tbilisi, cobrindo o prédio do Parlamento com grafites, enquanto os estudantes boicotavam as aulas, e as manifestações antigovernamentais em massa se estenderam por semanas.
Apesar dos protestos e da indignação pública, o partido governante, Sonho Georgiano, prosseguiu com sua controversa Lei sobre a Transparência da Influência Estrangeira, apresentada pela primeira vez em março de 2023 e aprovada por meio de um processo parlamentar acelerado.

Dois anos depois, a lei obriga as ONGs e os meios de comunicação que recebem 20% ou mais do seu financiamento do estrangeiro a registarem-se como "organizações que servem os interesses de uma potência estrangeira", sujeitando-os a pesadas obrigações de prestação de contas e a multas até 25,000 GEL (aproximadamente 7,500 libras).

Nos anos que antecederam os protestos de 2024, o cenário da liberdade de expressão na Geórgia já vinha se deteriorando, explica Saba Sutidze, do Instituto de Tolerância e Diversidade. Veículos de comunicação independentes enfrentavam crescente pressão política, processos por difamação eram cada vez mais utilizados contra jornalistas críticos e incidentes de violência contra repórteres permaneciam, em grande parte, impunes, afirma ele.

Monitores internacionais alertaram repetidamente para essa tendência de queda: em 2025, Repórteres Sem Fronteiras A Geórgia foi classificada em 114º lugar entre 180 países, indicando que "a emissora pública georgiana perdeu sua independência e a mídia independente enfrenta sérias ameaças financeiras, incluindo possíveis proibições e fechamentos forçados".

Oficialmente, as leis que restringem o financiamento de organizações de mídia e ONGs, conhecidas como "Leis de Agentes Estrangeiros", são introduzidas para promover a transparência e a segurança nacional. Na realidade, elas ameaçam a sociedade civil e sufocam a liberdade de imprensa.
O conceito de uma 'Lei de Agentes Estrangeiros' originou na Rússia e desde então tem sido replicada por governos autocráticos em todo o mundo. Essas leis são usadas como ferramentas de repressão contra organizações da sociedade civil, jornalistas e defensores dos direitos humanos, rotulando-os como agentes de interesses estrangeiros.
Repressão nas ruas e nas redações

Em 28 de novembro, o primeiro-ministro Irakli Kobakhidze declarou que a questão da abertura das negociações de adesão à UE seria retirada da agenda nacional. O anúncio desencadeou uma nova onda de indignação pública. Manifestações se espalharam por todo o país e multidões voltaram a ocupar as ruas de Tbilisi, exigindo prestação de contas e o retorno da Geórgia ao rumo pró-europeu.

Em meio a essa onda de protestos, o ambiente para jornalistas está se deteriorando drasticamente, como explica Sutidze: repórteres e cinegrafistas têm sido agredidos repetidamente enquanto cobriam as manifestações e, até o momento, reina a impunidade. Quaisquer investigações sobre esses ataques têm se mostrado amplamente ineficazes, com pouca esperança de responsabilização, afirma ele.

E a repressão logo se estendeu das ruas para as redações: “Na primeira quinzena de janeiro de 2025, a jornalista georgiana Mzia Amaglobeli, fundadora e CEO de dois importantes e respeitados veículos de mídia online, foi presa e um processo criminal foi forjado contra ela. Em agosto de 2025, ela foi condenada a dois anos de prisão”, relata Sutidze.
Ele enfatiza que isso enviou um sinal alarmante à mídia independente: "nenhum veículo, nenhum editor e nenhum jornalista está acima do alcance de processos judiciais com motivação política".

Em abril de 2025, o parlamento adotou a chamada Lei de Registro de Agentes Estrangeiros da Geórgia (FARA), segundo a qual qualquer pessoa — incluindo organizações de mídia — que coopere direta ou indiretamente com um agente estrangeiro e sirva aos seus interesses é obrigada a se registrar em um cadastro especial como agente estrangeiro, explica Sutidze.

“Na prática, porém, segundo declarações, espera-se que o Gabinete Anticorrupção classifique qualquer pessoa como agente estrangeiro unicamente com base no recebimento, direto ou indireto, de subsídios de organizações estrangeiras.”

A lei exige que aqueles considerados “agentes de um mandante estrangeiro” se registrem no Departamento Anticorrupção em até dez dias, sob pena de processo criminal e pena de prisão.

Segundo Sutidze, o verdadeiro objetivo da lei não é a transparência, mas a coerção.

“O Georgian Dream continua a adotar legislação destinada a restringir a liberdade de expressão e a receber subsídios que, sem dúvida, terão um efeito negativo também na liberdade de imprensa”, continua Sutidze, citando como exemplo uma legislação recentemente apresentada.

Desde dezembro de 2025, explica ele, qualquer assembleia ou reunião deve ser comunicada às autoridades, enquanto que anteriormente a obrigação de dar aviso prévio só se aplicava se a reunião fosse realizada numa via pública utilizada por veículos.
A obrigação foi agora estendida a assembleias realizadas em locais utilizados por pedestres.

Ele também menciona que o Ministério do Interior da Geórgia recebeu autorização para emitir uma instrução vinculativa — em vez de uma recomendação, como poderia fazer anteriormente — exigindo uma mudança no horário, local ou trajeto da assembleia ou manifestação, caso considere que a reunião possa obstruir a livre circulação de pessoas.

“Para violações dessas disposições, a detenção administrativa está prevista sem qualquer sanção alternativa, e já foi aplicada contra participantes de protestos”, afirma Sutidze.

“Atualmente, o parlamento está analisando projetos de lei que restringiriam ainda mais o recebimento de doações”, continua ele. Uma doação é definida como qualquer fundo transferido por um cidadão ou organização estrangeira para um cidadão ou organização georgiana. Os fundos podem ser monetários ou em espécie, como assistência técnica, se tais recursos forem usados ​​ou puderem ser usados ​​para influenciar o Governo da Geórgia ou qualquer segmento do público em atividades destinadas a moldar, implementar ou alterar a política interna ou externa da Geórgia.

“A definição também abrangeria recursos usados ​​ou potencialmente utilizáveis ​​para atividades derivadas de interesses políticos ou públicos, abordagens ou relações de um governo estrangeiro ou partido político estrangeiro”, explica Sutidze. “O recebimento desses fundos exigiria o consentimento prévio do Governo.”

Segundo Sutidze, a lei é absurda e abrangente demais: absurda porque exigiria o consentimento do Governo para atividades que, por definição e natureza, visam influenciar ou desafiar o Governo, e abrangente demais porque poderia levar qualquer pessoa que receba renda do exterior (mesmo que seja remuneração por trabalho) a ser responsabilizada caso participe de qualquer forma de atividade política.

“Essa responsabilidade não é meramente administrativa, mas de natureza criminal, acarretando pena de até seis anos de prisão”, afirma Sutidze.

O Código Penal também está sendo alterado para introduzir o novo crime de “Extremismo contra a Ordem Constitucional da Geórgia”.

“Entre outros atos, este delito incluiria a auto-representação não autorizada, pública e sistemática por um cidadão georgiano — ou a representação de outra pessoa — como representante das autoridades georgianas, bem como qualquer outra conduta sistemática da mesma pessoa, se tal conduta tiver como objetivo estabelecer uma percepção de ilegitimidade da ordem constitucional ou dos órgãos constitucionais da Geórgia e prejudicar os interesses da Geórgia ou criar uma ameaça real de dano aos interesses da Geórgia.”

O impacto sobre jornalistas locais e estrangeiros

Sutidze teme que a disposição tenha como objetivo criminalizar alegações de que o Sonho Georgiano é ilegítimo e vise reprimir a oposição ou indivíduos que questionam a legitimidade dos resultados das eleições de 2024.
O impacto sobre jornalistas locais e estrangeiros

Jornalistas estrangeiros também não foram poupados: “Essas medidas repressivas visaram não apenas representantes da mídia georgiana, mas também jornalistas estrangeiros. É provável que jornalistas estrangeiros, particularmente aqueles de países ocidentais que cobrem a Geórgia para a imprensa internacional, sejam vistos como uma ameaça pelo Sonho Georgiano, à medida que os esforços do partido para isolar a Geórgia do Ocidente continuam a se intensificar.”

Nas semanas que antecederam as eleições parlamentares de 2024, jornalistas estrangeiros foram impedidos de entrar na Geórgia. Muitos críticos acusaram o governo de uma tentativa deliberada de impedir que a mídia ocidental cobrisse a situação no país. "Essa suposição é bem fundamentada, já que todos os jornalistas que tiveram a entrada negada estavam ativamente cobrindo a política georgiana e assuntos relacionados." Segundo Sutidze, mais de dez casos desse tipo já foram documentados, e a prática não dá sinais de arrefecimento.

O Instituto para a Tolerância e a Diversidade (TDI) representa atualmente vários desses jornalistas que tiveram sua entrada negada. “Nossos beneficiários incluem jornalistas investigativos, fotógrafos e jornalistas da imprensa escrita da França e do Reino Unido que cobrem ativamente temas relacionados à situação política da Geórgia. Eles reportaram sobre protestos pró-europeus na Geórgia e a resposta repressiva do partido Sonho Georgiano. Seus artigos foram publicados em veículos de destaque como The Guardian, Politico e Le Monde Magazine. Um de nossos beneficiários também é um ex-jornalista da Lituânia.

“Dois desses jornalistas não só tiveram a entrada na Geórgia negada, como também suas autorizações de residência permanente — emitidas com base no casamento com cidadãos georgianos — foram revogadas sob a alegação de segurança do Estado. Como resultado, seus cônjuges e filhos georgianos tiveram que deixar o país para manter suas famílias unidas. A TDI também está litigando nesses casos relacionados à residência.”

Sutidze também destacou um padrão preocupante que está surgindo nas fronteiras da Geórgia. Jornalistas que têm a entrada negada frequentemente relatam que policiais do Departamento de Polícia de Patrulha (PPD) confiscam seus telefones celulares enquanto aguardam voos de deportação. “Essa solicitação não tem fundamento legal, mas parece ser uma prática rotineira do PPD. Alegadamente, o objetivo é impedir que estrangeiros se comuniquem com familiares, compartilhem informações sobre a recusa de entrada ou entrem em contato com um advogado antes da deportação.”

Em um dos casos, Sutidze nos conta que um jornalista checo conseguiu alertar um amigo antes que seu telefone fosse apreendido, o que levou um advogado da TDI a correr para o Aeroporto Internacional de Tbilisi. Mesmo assim, os agentes da PPD se recusaram a permitir que o advogado se encontrasse com ele, em uma ação que Sutidze descreve como "completamente ilegal e sem qualquer justificativa legal".

Após receber diversas denúncias, a Defensoria Pública da Geórgia solicitou formalmente informações ao Departamento de Polícia da Filadélfia (PPD). O Departamento respondeu negando que tais confiscos tivessem ocorrido.

Outra tendência emergente envolve multas financeiras inexplicáveis, explica Sutidze. Vários estrangeiros — incluindo um fotojornalista representado pela TDI — foram multados em 5,000 GEL (aproximadamente £1,418) sem qualquer justificativa. “Acreditamos que isso possa estar relacionado aos protestos pró-Europa”, afirma, observando que todos estavam cobrindo ou participando das manifestações em massa que se seguiram à decisão do primeiro-ministro Kobakhidze de retirar as negociações de adesão à UE da agenda. Os pedidos de esclarecimento da TDI ao Ministério do Interior sobre essas multas não foram respondidos.

Em quase todos os casos de recusa de entrada nas fronteiras que a TDI assumiu, as autoridades citam uma cláusula genérica como base legal para a recusa: "outros casos previstos na legislação georgiana". Essa disposição funciona como uma justificativa ampla e abrangente, permitindo que as autoridades recusem a entrada sem especificar uma base legal concreta.

Sutidze nos informa que “o PPD não especificou a qual caso se referia. Na verdade, não existem tais 'outros casos' na legislação georgiana, contudo o Departamento invoca regularmente esse subparágrafo, o que constitui um abuso da lei.”
Quando esses casos chegam aos tribunais, o PPD frequentemente muda sua justificativa, invocando repentinamente os "interesses de segurança do Estado", alegando que os jornalistas representavam uma ameaça à segurança do Estado georgiano. Trata-se de um fundamento jurídico distinto para negar a entrada, que jamais foi mencionado na recusa inicial, no recurso administrativo ou nas alegações por escrito, explica Sutidze.
“Se o Departamento realmente possuísse tais informações, deveria ter citado o parágrafo correspondente em sua decisão.” Por ora, todos os casos da TDI envolvendo jornalistas permanecem pendentes nos tribunais de primeira instância.

Com o apoio da Media Defence, a TDI continua com o processo judicial e afirma estar pronta para recorrer de decisões desfavoráveis ​​a tribunais superiores.

O desfecho desses casos não apenas determinará o destino dos indivíduos envolvidos, mas também moldará o futuro da liberdade de imprensa em um país onde as instituições democráticas estão sob forte pressão.

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