Fundada em 2010 com o objetivo de transformar protestos em mudanças legais duradouras, a Res Publica tornou-se a principal defensora legal de jornalistas na Albânia, oferecendo proteção a longo prazo por meio de litígios estratégicos, ações com base na Lei de Acesso à Informação e apoio jurídico ágil em um ambiente onde repórteres permanecem isolados, vulneráveis juridicamente e sob constante pressão política e econômica. A Media Defence conversou com seu Diretor Executivo, Dorian Matlija, sobre os desafios enfrentados por jornalistas e seus representantes.
“Legalmente, a liberdade de expressão na Albânia é protegida, mas na prática permanece muito frágil.” Dorian Matlija é advogado, diretor executivo e principal consultor jurídico da Res Publica, uma ONG albanesa de direitos humanos especializada na proteção jurídica dos direitos fundamentais.
Questionado sobre seu trabalho e a situação da liberdade de imprensa na Albânia, Matlija começa destacando o abismo entre os direitos formais de que os jornalistas desfrutam e a realidade no terreno, tanto para os repórteres quanto para seus advogados. Essa contradição define o ambiente midiático do país, afirma ele: direitos no papel, mas pressão e intimidação por todos os lados.
Na Albânia, os jornalistas atuam num cenário marcado pela concentração da propriedade dos meios de comunicação e por uma forte influência política, frequentemente entrelaçada com o crime organizado. Esse ambiente, explica Matlija, produz sistematicamente a autocensura e desencoraja o jornalismo investigativo.
Essas pressões são agravadas pelos contratos instáveis sob os quais muitos jornalistas trabalham, o que limita sua independência e dificulta o acesso à proteção legal. "Jornalistas que enfrentam processos judiciais muitas vezes são deixados à própria sorte, tendo que se defender individualmente e absorver toda a pressão sozinhos."
Quando uma ação judicial é movida, os jornalistas frequentemente se veem obrigados a decidir se devem ou não continuar seu trabalho. E quando optam por lutar – às vezes com representação pro bono obtida por meio de doações ou apoio a projetos específicos – a situação para seus advogados costuma ser igualmente desafiadora. As alegações de difamação são frequentemente vagas, com os queixosos deixando de especificar o material supostamente difamatório até fases avançadas do processo, o que dificulta a estruturação de uma defesa eficaz.
O impacto da reforma judicial
“Outro desafio estrutural é a duração extraordinária dos julgamentos, uma consequência da drástica redução – aproximadamente pela metade – do judiciário após o processo de seleção na Albânia”, explica Matlija.
Esses atrasos decorrem, em grande parte, da Lei Albanesa de Verificação de Aptidão (Lei nº 84/2016), adotada em agosto de 2016 como a mais abrangente reforma judicial desde o fim do comunismo. A lei estabeleceu um processo completo de reavaliação para juízes e promotores, avaliando a competência profissional, a integridade moral e os ativos financeiros, com o objetivo declarado de fortalecer o Estado de Direito e restaurar a confiança pública.
Cerca de 800 funcionários judiciais foram avaliados, dos quais mais de 200 foram demitidos ou pediram demissão.
Embora amplamente considerada uma medida anticorrupção necessária, a investigação também teve profundas consequências práticas. A remoção de tantos juízes e procuradores criou uma grave escassez de pessoal em todos os níveis do judiciário. Os tribunais ficaram impossibilitados de gerir o volume de processos de forma eficiente, o que levou ao adiamento de audiências, à redistribuição de processos e, em alguns casos, à retomada completa dos mesmos.
A reestruturação institucional em curso e os recursos contra as decisões de avaliação minaram ainda mais a continuidade. Como resultado, apesar de seus objetivos de longo prazo, a reforma contribuiu, no curto e médio prazo, para o aumento do acúmulo de processos e prolongou drasticamente os julgamentos.
Até mesmo casos simples podem agora levar anos. "O próprio processo se torna uma punição", diz Matlija.
SPAK e o problema do desequilíbrio de potência
Outra complexidade reside no papel crescente da SPAK, a Estrutura Especial contra a Corrupção e o Crime Organizado, um órgão independente criado em 2016 para investigar a corrupção e o crime organizado na sociedade e no governo albaneses.
A ampliação do mandato da SPAK teve implicações significativas para a liberdade de imprensa, particularmente para jornalistas investigativos.
No final de 2023, a SPAK apreendeu os dispositivos profissionais e pessoais do jornalista Elton Qyno, da Ora News, depois de ele ter publicado material relacionado a um caso de corrupção de grande repercussão, buscando obrigá-lo a revelar suas fontes.
Organizações de defesa da liberdade de imprensa criticaram amplamente a ação, considerando-a uma ameaça direta ao sigilo das fontes – um pilar do jornalismo independente.
Organizações internacionais, incluindo Repórteres Sem Fronteiras e Federação Europeia de JornalistasA Comissão de Direitos Humanos da ONU instou formalmente a SPAK a respeitar a proteção das fontes e a devolver os equipamentos apreendidos. Após uma denúncia apresentada pela Res Publica, o Comitê de Direitos Humanos da ONU solicitou às autoridades albanesas que suspendessem qualquer inspeção ou uso judicial dos materiais enquanto o caso estiver sob análise.
O Tribunal Constitucional da Albânia decidiu posteriormente que as apreensões violaram a liberdade de imprensa e anulou as decisões dos tribunais inferiores. O episódio, contudo, expôs as profundas tensões entre a aplicação das leis anticorrupção e a capacidade dos jornalistas de investigar sem receio de represálias legais invasivas.
“Garantir a igualdade de armas contra uma organização tão poderosa é uma luta séria e constante”, afirma Matlija.
Ameaças em evolução
As pressões que os jornalistas enfrentam hoje diferem marcadamente daquelas do início dos anos 2000, quando Matlija começou nesta área do direito, trabalhando também como Diretora Jurídica da Rádio e Televisão Albanesa.
“Vinte anos atrás, as principais ameaças eram acusações criminais, difamação e – não raramente – agressão física”, lembra Matlija. Hoje, a censura opera de maneiras mais sutis e complexas.
A primeira camada é a cooptação econômica. Veículos de comunicação pertencentes a grandes grupos empresariais – frequentemente atuantes em setores dependentes de licenças estaduais – são “pacificados por meio de incentivos, acesso e tratamento preferencial”. Quando isso falha, vem a pressão fiscal: inspeções, problemas com licenças e advertências regulatórias.
A segunda camada envolve campanhas de difamação, processos judiciais abusivos contra a participação pública (SLAPPs), assédio e ataques cibernéticos, incluindo o vazamento de dados privados. O resultado é uma erosão gradual do jornalismo investigativo, alcançada menos por meio de repressão explícita do que por exaustão.
“Visto de fora, o declínio em incidentes extremos pode dar a impressão de progresso democrático. Na realidade, reflete uma mudança estratégica”, afirma Matlija.
Uma nova geração de ferramentas jurídicas
Muitas das pressões atuais exploram exceções contidas no Artigo 10(2) da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, que permite restrições à liberdade de expressão sob certas condições.
A lei de direitos autorais está sendo cada vez mais usada como arma. "Essas ações judiciais não visam proteger a criatividade; elas visam suprimir o jornalismo", afirma Matlija.
As leis de reputação, proteção de dados e segredo comercial são igualmente reaproveitadas para bloquear informações que são claramente de interesse público. O mesmo ocorre com o princípio da proteção de investigações criminais, por vezes invocado para justificar a apreensão de equipamentos jornalísticos.
Um dos desenvolvimentos mais perturbadores, acrescenta Matlija, é o que ele chama de “criminalização da proximidade”. Jornalistas que cobrem o crime organizado são cada vez mais investigados como se fossem participantes. “A principal ‘prova’ são essencialmente seus contatos profissionais e conversas com fontes”, afirma.
A implicação é assustadora: falar com uma fonte pode ser interpretado como cumplicidade.
Política, negócios e crime organizado
A organização Repórteres Sem Fronteiras, que classificou a Albânia em 80º lugar no seu Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2025 – 19 posições acima do que em 2024 – identifica a política, os interesses comerciais e o crime organizado como as principais forças que minam a liberdade de imprensa.
Matlija concorda: “As decisões editoriais são frequentemente influenciadas não pelo julgamento jornalístico, mas pelos interesses econômicos dos proprietários, que não podem se dar ao luxo de antagonizar atores políticos.”
Veículos de comunicação essenciais correm o risco de perder receita publicitária ou acesso institucional, enfrentar inspeções ou se tornarem alvos de campanhas difamatórias coordenadas. Quando grupos criminosos se envolvem, a intimidação costuma ser a consequência – silenciosa, porém eficaz.
“O simples conhecimento de que uma história envolve indivíduos com reputação de violência muitas vezes é suficiente para silenciar a reportagem antes mesmo de ela começar.”
Embora o número total de processos judiciais tenha diminuído, seu impacto se intensificou. "Podemos ver menos casos, mas aqueles que ocorrem tendem a envolver pedidos financeiros mais elevados, medidas cautelares intrusivas e pressão econômica coordenada." O efeito cumulativo é a exaustão – e, eventualmente, a autocensura.
Defender jornalistas e resistir à pressão estrutural.
A Res Publica trabalha simultaneamente na defesa individual e na reforma sistêmica. Grande parte do seu trabalho envolve intervenção rápida em ações judiciais abusivas contra a participação pública (SLAPPs) e medidas judiciais desproporcionais.
“Quando se elimina o medo do desconhecido, até mesmo os processos SLAPP se tornam muito menos intimidantes”, observa Matlija.
Os jornalistas representados pela Res Publica muitas vezes nem precisam comparecer ao tribunal, o que lhes permite continuar a fazer reportagens. "Continuamos sendo a única organização na Albânia a fornecer esse tipo de proteção jurídica imparcial e de longo prazo para jornalistas", afirma.
Em nível sistêmico, a organização atua por meio de litígios relacionados à Lei de Liberdade de Informação, monitoramento legislativo, cooperação com a Polícia Estadual e iniciativas educacionais que ajudam jornalistas a navegar no ambiente jurídico cada vez mais complexo da Albânia.
“O que surgiu foi um modelo sofisticado e multifacetado de censura que permite ao país aparentar estar alinhado com os padrões democráticos, ao mesmo tempo que restringe significativamente o jornalismo investigativo”, conclui Matlija.
Segundo ele, a Res Publica existe para combater essa realidade – um caso, um jornalista e uma reforma estrutural de cada vez.